As minhas visitas diárias
ao Lar permitem-me adquirir um maior conhecimento sobre a fragilidade humana, a sua
deterioração mental e física; rápida para alguns, lenta para outros, mas
inexorável.
Vou tomando conhecimento
de como os serviços são geridos, vou conhecendo melhor
os residentes, as suas necessidades e as suas mudanças súbitas de humor, os
seus queixumes quase sempre ininteligíveis, os seus olhares vazios...
Segundo estudos
efetuados, a prevalência da doença de Alzheimer ou demencia é menor nos indivíduos com oito ou mais
anos de escolaridade.
Um outro senhor que nos
dá um lindo sorriso quando o cumprimentamos tem 63 anos. Foi para o Lar quando
tinha 53.
Sei de alguns residentes que
têm uma família dedicada e carinhosa que não os abandonam, sei de outros que
nunca têm visitas mesmo que alguns dos seus familiares vivam em Toronto ou nas
imediações, e ainda outros que não têm família nenhuma.
Trabalhar num Lar não é
fácil. Requer paciência, muita paciência...
Como demonstrar o meu apreço, o meu reconhecimento pelo trabalho que estes funcionários executam
diariamente?
Ontem recorri aos bons
pastéis de nata que agradaram a todos os que trabalharam no turno da tarde/noite (das
15h às 23h).
Os pastéis de Belém (made
in Canada) fizeram sucesso!
Infelizmente também fui uma frequentadora assídua de Lares, não por essa doença mas por outras...:-((
ResponderEliminarEstou como tu, admiro quem trabalha com dedicação e ternura nestes locais!
Abraço
Como nos habituamos a determinados ambientes! De início, foi extremamente difícil como podes imaginar... por todas as razões. Hoje não me incomodo quando, por exemplo, esta senhora com uma pronúncia nitidamente açoreana, grita: “Oh, querida,ajuda-me”, “Oh, corisca, o qu’é que tás aí a fazer?” sem se dirigir a ninguém em especial; ou então uma outra que chama bem alto “Nurse” – a única palavra que lhe ouvi; ou os que ainda conseguem andar e deambulam por aqueles corredores, silenciosos, para trás e para a frente, parando aqui e acolá, olhando-me fixamente quando entram no quarto da minha mãe quando estamos a passar alguns momentos sós, tentando recordar outros tempos, ou melhor, tentanto (eu) fazer-lhe lembrar de gestos como acarinhar o meu rosto, dar-me beijinhos (ainda os dá e não é apenas um, acabo por receber uma data deles de seguidinha! : ) )...
EliminarNão sei se conseguiria trabalhar num lar... é preciso mesmo muita dedicação.
ResponderEliminarAinda pensei em oferecer os meus serviços como voluntária neste lar durante as férias mas, entretanto, com a inundação e tal, estive tão ocupada que acabei por nada fazer. Assim, limito-me a falar com os que estão na mesma àrea da minha mãe, tento “arrancar-lhes” um sorriso de vez em quando, apaziguar outros mais inquietos nem sempre com sucesso...
EliminarEm 2011, um trabalho jornalístico obrigou-me a visitar muitos lares. Foi um trabalho por vezes deprimente, mas muito enriquecedor sob o ponto de vista humano. Os jovens deviam ter a humildade de querer aprender com os velhos, em vez de olharem para eles como um estorvo. Pelo menos evitariam cometer alguns erros que os velhos já cometeram e lhes podiam explicar como deviam evitá-los.
ResponderEliminarEssa seria uma boa experiência para os jovens, trabalhar com os idosos. O meu filho chegou a trabalhar em regime de part-time (acabado de entrar na adolescência) num lar perto de casa. Um amigo tinha-lhe dito que havia uma vaga para umas horas por semana e candidatou-se. Três rapazes e uma rapariga, colegas da secundária, tb lá trabalhavam. Foi, de facto, uma experiência enriquecedora como ele ainda diz. Referia-se muitas vezes como alguns idosos nunca tinham visitas e como ficavam satisfeitos quando o viam entrar. Por isso, interessou-se em acompanhar-me quando visitei muitos lares antes de escolher os que seriam adequados à minha mãe e fazia perguntas bastante pertinentes para complementar o questionário que eu tinha previamente elaborado em casa.
EliminarCatarina, antes da minha mãe ter a doença de Alzheimer, eu trabalhava como voluntária em um hospital perto de casa. Curiosamente depois de 5 anos, infelizmente minha mãe adquiriu a doença, e sei muito bem como é, é um trabalho integral, que requer dedicação total e muito amor. Ensinei minha filha, na época ainda adolescente, que embora precisasse de cuidados o idoso continua sendo uma fonte de sabedoria e experiência que teve ao longo de sua vida, e merece todo nosso respeito.Você foi muito carinhosa levando uns mimos para os funcionários, pois a tarefa é bem árdua. Beijinhos
ResponderEliminarComo já estou familiarizada com alguns dos ajudantes de lar (os que prestam apoio pessoal ao residente) sei que alguns já estão neste tipo de serviço há quinze, vinte anos. Eu diria que este tipo de emprego requer uma certa vocação.
Eliminar: )
Muito triste o fim de cada um de nós e estas vivências finais em lares... Não gosto de pensar nisso. Na minha família, as mortes têm sido quase prematuras e de repente. Com exceção da minha avó que me criou e que viveu comigo até aos 90 anos. É outra forma de tristeza e de vazio.
ResponderEliminarEssa ideia dos pastéis de nata foi excelente!Foi um miminho...
Também não gosto muito de pensar no assunto, Graça.
EliminarQuando se fala em pastelaria portuguesa todos reconhecem os “custard tarts” como chamam aos pastéis que todos os “canadianos” gostam.
: )
Nos lares que já conheci em Portugal há pessoas com todo o género de doenças ou só velhice, nenhum é especializado nesta ou naquela. Certo é que quase todos têm doentes de Alzheimer, como de Parkinson, pessoas acamadas e tal. Não tenho dúvidas que deve ser um trabalho difícil e que requer muito empenho, paciência e carinho pelos idosos. Infelizmente, creio que há pessoas que não têm essas qualidade, apesar de ser esse o seu cargo. Assim, em alguns são frequentes as queixas dos idosos e os furtos dos seus bens. Uma tristeza, a juntar ao panorama já de si pouco animador...
ResponderEliminarMas, como é óbvio, haverá muitos e bons funcionários nos lares e esses merecem todos os "mimos"! :)
Abraço!
Este Lar também tem residentes com vários tipos de doença. No quarto andar, onde a minha mãe se encontra, todos têm Alzheimer em fase adiantada.
EliminarDe vez em quando ouvimos “estórias” de arrepiar que já têm sido tema de documentários televisivos. Não é frequente, mas acontece.
Ainda não tive razão de queixa (com exceção das dificuldades que tivemos nas primeiras duas semanas em que a situação esteve bastante complicada); de uma maneira geral, as funcionárias são competentes, pelo que tenho observado e pelo que sei através de conversas com vários membros de família de alguns residentes.
Para além disso, já se aperceberam (desde o administrador aos funcionários de apoio) que estou presente e atenta.
Curiosamente, e apesar de se encontrarem bastantes idosos portugueses espalhados pelos quatro andares, não há ajudantes portugueses. Apenas uma das animadoras é portuguesa. A maioria são filipinas, indianas, algumas do Vietname e da Tailândia e outras afro-canadianas... sendo duas da Jamaica. : )
Os “mimos” devem fazer parte da forma como tratamos aqueles que tratam os nossos entes queridos. Apenas como um “token of appreciation”. Há dias, depois de me esquecer pela segunda ou terceira vez, de levar um “mimo” para uma das senhoras que cuida mais da minha mãe, pedi um envelope e coloquei duas notas de 20 euros pensando que eram de 20 dólares (tinha naquele dia comprado alguns euros e as notas são da mesma cor e nem vi a diferença porque estavam dobradas). A senhora recebeu e agradeceu sem abrir o envelope. No outro dia, sendo o seu dia de folga, teinha deixado um bilhete para mim juntamente com os 40 euros. Dizia-me que agradecia mas que não podia aceitar o dinheiro porque era contra os regulamentos do Lar. Gostei do gesto. Acabei por lhe oferecer chocolates.
Tive uma professora de linguística que me contou que teve um aluno (juiz reformado) que voltou à faculdade para aprender línguas porque atrasava os efeitos da doença...
ResponderEliminarFaço voluntariado com idosos que não estão em lares mas, sim em casa sozinhos é uma experiência muito proveitosa para mim que recebo muito deles!
Quando a minha mãe foi diagnosticada, adquiri muitas brochuras da Associação de Alzheimer que presta muito apoio aos doentes e seus familiares. Recebi dois livros sobre a doença como prenda e levantei outros da biblioteca. E é isso mesmo que aconselham: exercício mental constante: jogos de cartas, aprender uma nova língua, puzzles, palavras cruzadas, etc.
EliminarJá fui voluntária num lar quase todos eram doentes de Alzheimer, fui para lá como "animadora" nem sabia muito bem ao que ia... mas depois gostei muito consegui um grupo de cinco pessoas que me esperavam para jogar Dominó, não sabiam o meu nome chamavam-me a "jogadora" :), ríamos bastante eu saía de lá com uma sensação feliz até que chegou ao fim de um ano lectivo e fiz férias, quando regressei os donos estavam em negociações para vender o Lar e num mês parecia que tinha por lá passado uma nuvem negra....não me reconheceram, foram separados para outros Lares e um dos senhores morreu. Foi muito triste. Trabalhar num Lar é verdadeiramente difícil assisti a situações degradantes e acreditem que todos estavam a dar o seu melhor....que fazer quando os utentes pagam 1200euros/mês quase todo o dinheiro que dispõem mas que só paga a diária com alimentação não estando incluídos remédios nem fraldas??? O drama das fraldas é uma grande tristeza...Não deveria ser possível chegar-se ao ponto de viver os últimos dias com este tipo de necessidades. xx
ResponderEliminarCompreendo perfeitamente. É triste mas infelizmente chega uma altura em que os familiares não têm condições para cuidar dos seus entes queridos. Dói mas é a realidade.
EliminarJá tenho visto jovens voluntárias neste Lar. Não sei a carreira que pretendem seguir mas de qualquer forma é uma boa experiência para elas.
Os pasteis foi o teu miminho para com eles, que infelizmente alguns não vão recordar!
ResponderEliminarSabes Catarina não queria ser repetitiva quando digo que a minha mãe me abandonou tinha eu 8 aninhos, na altura levou com ela o meu irmão mais novo apenas com 2 aninhos, o único que ela nunca largou, viveu sempre para ele, até Setembro do ano passado, altura em que partiu um braço e de seguida um AVC que a paralizou do lado direito,pois a partir dessa data o filho para quem ela viveu, nunca mais quiz saber dela.
Ela faz em Setembro 87 anos, está num lar muito caro, ela passa o seu tempo na cama ou numa cadeira de rodas, usa fralda, mas está completamente consciênte, com uma memória extraordinaria, todos os dias ou quase vou estar um pouco com ela, é para mim uma enorme tristeza ver aquela mulher no estado em que está, assim de um dia para o outro, sinto-me triste porque a amo, mas ela continua a ser uma mulher fria comigo e com todo o mundo, nunca fui vista como filha, mesmo quando morreu o meu marido e fiquei com duas filhotas para criar, ela nunca me perguntou se eu precisava de ajuda, sempre deu amor e tudo ao outro filho que nao quer saber dela, sempre que vou ao lar venho doente, algumas vezes tenho que parar o carro na floresta e chorar, gritar, as pessoas que lá estão são todas com AVCs ou Alzheimer,algumas muito jovens, conheço bema maioria delas, sei que foram excelentes mães, mas os filhos nem as vão visitar e a viverem tão pertinho,dói-me tanto ver estas situações.
Quanto às funcionárias nem todas conseguem ser competentes, pois por aqui existem muitos lares que recorrem ao desemprego para obter funcionárias, mas elas não têm capacidade para tratar de pessoas assim, já vi coisas horriveis, diria mesmo desumanas, mas não me calei.
Desculpa a extenção.
beijinho e uma flor
O miminho foi apenas para os funcionários. : )
EliminarSim, já te tinhas referido ao teu relacionamento com a tua mãe. Lamento essa situação tão triste. Mas tu continuarás a dar-lhe a atenção que sentes que deves dar sem olhar a que recebas qualquer agradecimento da parte dela. Abraço forte, Flor.
Cara confrade Catarina!
ResponderEliminarEste seu amigo de longe deseja-lhe muita força para enfrentar as consequências de ver um ente querido, principalmente quando é aquele nos trouxe à luz, numa situação completamente dependente, que nos obriga a tomar a dificílima decisão de deixá-los aos cuidados de entidades, que embora qualificadas nos deixa a princípio com uma sensação que não desejamos a ninguém, todavia é a decisão mais acertada para que nosso ente querido tenha todos os cuidados especializados necessários para ao menos atenuar as sequelas advindas deste mal infelizmente ainda incurável.
Solidário abraço! Saudações fortalecidas!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP
PS - Tenho a mais absoluta convicção que você é uma filha valorosa, que não mede esforços para que todos os recursos materiais e médicos estejam a disposição da sua querida genitora.
Há medicamentos que atrasam a evolução da doença como os que a minha mãe está a tomar mas ainda não há cura e não se prevê para breve.
EliminarObrigada pelas suas palavras. : )
Que bom utilizar experiências dolorosas como aprendizado e conscientização de nossa fragilidade como seres humanos. De uma forma ou de outra, deterioramos. Que bom que diante de toda a turbulência de emoções, você se preocupa em demonstrar gratidão. Bonito gesto! Beijos, Paula
ResponderEliminarUm gesto, uma palavra amiga são sempre bem recebidos. Eu sei! : ) Gosto de palavras amigas, de mimos... : )
EliminarAbraço
Catarina,
ResponderEliminarA sua visita, a sua preocupação, esses pequenos gestos, são mais do que suficientes para ajudar quem ali trabalha, para lhes demonstrar afecto e admiração.
Bem haja!
: )
EliminarTambém gosto quando reconhecem o trabalho que faço. : )
Estimada Amiga Catarina,
ResponderEliminarSão esses pequenos, mas grandes gestos que fazem a diferença, nos dias de hoje o humanismo parace estar em vias de extinsão é como é bom saber que ainda existem pessoas com um coração sensível e amiga de seu próximo.
Bem Haja.
Abraço amigo
Sei como é agradável ouvir uma palavra amiga e receber um “miminho”, como se diz em português!
EliminarHá uns três ou quatro anos, estava em casa de uns primos a passar uns dias e uma tarde eu e a minha prima fomos ao supermercado. Diz o marido: não se esqueçam de me trazer um miminho. Fiquei surpreendida. Miminho para mim era uma carícia, um beijo, um abraço. A caminho do supermercado foi-me explicado o significado de “miminho” que naquela tarde se traduziu num saquinho de ostras!
Gesto bonito e com muito significado para quem faz um trabalho incrível e na generalidade mal apreciado e mal pago.
ResponderEliminarForça Catarina!
: )
EliminarOlá Catarina:
ResponderEliminarSó hoje percebi porque não poderia comprar o mel da Lousã ;-)Está no Canadá e não em Portugal! A net é global e sem fronteiras...e sabe-nos bem. Posso sempre enviar-lhe o mel para aí por correio ;-)
Quanto a este post e à sua sensibilidade, reconheço-a inteiramente no meu âmago. Somos tristes por nem sempre a vida nos permitir estarmos perto dos nossos velhos, tanto como gostaríamos e o nosso coração nos reclama. Sempre que lá vou, venho com o meu coração esmagado...
São decisões que mais tarde ou mais cedo têm que ser tomadas e nunca de ânimo leve.
EliminarQuanto ao mel da Lousã, nunca se sabe se o encontrarei por aqui! : )
Super, Catarina!
ResponderEliminarBeijo e ...you´re one of a kind! ;)
You are too kind, dear Ricardo! : )
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