quinta-feira, 30 de abril de 2015

Há muito que perdeu a capacidade para utilizar os talheres. É alimentada pelas funcionárias ou pelos filhos.

Quando chego à hora do jantar, gosto de a levar para o seu quarto e ali lhe dou de comer como se de um bebé se tratasse ao mesmo tempo que vou trauteando qualquer canção infantil que ela costumava cantar aos meus filhos. “O meu chapéu tem três bicos” é uma delas. De vez em quando sorri e como que move a cabeça ao ritmo da canção. Ou será que imagino aquele movimento?

Ontem tivemos muitas visitas. Deixei a porta do quarto aberta o que é um convite a qualquer residente que passeia pelos corredores. Primeiro entrou um senhor que pouco já fala. Está neste lar há relativamente pouco tempo. Dizem-me que era engenheiro informático. Depois entraram duas senhoras. Uma aproximou-se e ali ficou parada atenta aos meus movimentos e ao que ainda restava no tabuleiro. A outra senhora, baixa, de cabelo encaracolado e não totalmente grisalho fala pelos cotovelos. É de El Salvador. Aproveito e pratico o meu espanhol. Se é um bom dia para ela, consegue dizer-me que percebe tudo o que lhe digo e que, sim, que devo falar com ela na sua língua sempre que lá for. Que é um prazer falar comigo. Eu agradeço e dá-me um lindo sorriso. Entretanto, entra mais uma residente de andarilho. Fala uma língua que não entendo. Parece turco mas não tenho a certeza.


Uma das enfermeiras dá-se conta daquela invasão, pede-me desculpa, e, com a ajuda de uma auxiliar, leva os residentes para o corredor embora lhes tivesse dito que não me estavam a incomodar. 

Estes são dos poucos que ainda são capazes de andar. A maioria já está em cadeiras de rodas. Tal como a minha mãe.

Não posso deixar de admirar os prestadores de cuidados gerais e de saúde nos lares como este e, essencialmente, os que trabalham neste andar onde residem os casos mais avançados da doença de Alzheimer.


30 comentários:

  1. Uma doença triste essa>Consome as pessoas pouco a pouco! E esses que trabalham nesses lares, são mesmo pessoas especiais, anjos! bjs, chica

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    1. É, de facto, doloroso ver a deterioração gradual dos entes queridos. Gradual e implacável. Primeiro são os esquecimentos que até os médicos podem atribuir ao processo do envelhecimento. Depois... as dificuldades para ler, para contar... e acabam por deixar de falar...

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  2. Sei como é difícil, Catarina. Deixo um abraço.

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  3. Corajosa Catarina! Abracinho apertado!

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    1. Obrigada, Timtim Tim.

      O que me surpreendeu foi ao tomar conhecimento, na altura em que a minha mãe foi diagnosticada, que é uma doença não apenas de idosos. Alarmante. Que eu saiba este é o primeiro caso da família, pelo menos da mais chegada, já que há familiares espalhados por todos os continentes que nem conheço.

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  4. Tive um familiar próximo com a doença Alzheimer, sei pelo que estás a passar...
    Beijinho solidário Catarina e muita força.

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    1. Segundo estatísticas que li no outro dia, em 2011 havia 747.000 pessoas a sofrer de Alzheimer/demência ou seja 14,9 por cento da população canadiana com mais de 65 anos de idade. Se entretanto nada mudar, em 2031 prevêm 1,4 milhões de pessoas com esta doença. Atualmente, os custos associados a este “mal” é de 33 mil milhões de dólares.

      É ou não é preocupante?

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    2. Isso preocupa-me bastante, sim...

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  5. ~ Penso que é uma surpresa para todos os teus leitores amigos.
    ~ Fizeste bem desabafar conosco. É o lado mais triste da vida,
    mas é preciso encará-lo com serenidade e coragem.

    ~~~~~~ Um longo abraço. ~~~~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Obrigada, Majo.
      Já escrevi um ou dois posts sobre o assunto. Nesta altura, há que focar em proporcionar-lhe a melhor qualidade de vida possível e aparência! Falo em aparência porque a minha mãe sempre cuidou muito bem de si. Vestia-a com muito gosto, o cabelo estava sempre bem cortado e penteado. A indumentária hoje em dia tem que ser prática mas todas as auxiliares sabem, desde as primeiras semanas (quando vi umas misturas de cores esquisitas!!), que as peças de roupa têm que condizer!! A cabeleireira que lá trabalha foi instruída de como deveria cortar o seu cabelo. Ficou aprovada depois do primeiro corte. : )) Por muito bons que os lares sejam, os familiares devem estar sempre atentos aos mínimos pormenores e nunca esquecer que deverão tratar os funcionários com respeito.

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    2. ~~ Grande abraço, querida amiga. ~~
      ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    3. ~~ Grande abraço, querida amiga. ~~
      ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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  6. Preocupante, a doença e a quase displicência com que as entidades competentes a abordam.

    A sua ajuda ao familiar é sinal de preocupação, de solidariedade e de respeito pela própria doença.

    Um abraço, Catarina.

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    1. Não há displicência por parte das entidades canadianas pelo que constatei pessoalmente. A partir do momento em que os pacientes são diagnosticados recebe-se muito apoio da Alzheimer Society : muitas informações e sessões de esclarecimento em grupo.

      A CCAC é uma agência ligada ao Ministério da Saúde que faculta todos os serviços e apoio necessários até os pacientes entrarem num lar. Só posso confirmar que são eficientes e rápidos. Quando são necessárias mais horas de apoio ao domicílio, recorremos a agências privadas que prestam ótimos serviços. Bem, estas terão mesmo que providenciar bons serviços ou correm o risco de falir! : )

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  7. Hello Online ShoppingSites,
    Thanks for the visit and for the invitation.

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  8. Uma luta desigual em que todos saem a perder, primeiro eles, ao aperceberem-se da sua doença, depois aqueles que lhes são próximos...

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    1. Para mim talvez essa fosse a fase mais difícil, a fase em que ela se apercebia que “havia qualquer coisa errada” com a sua cabeça, com a sua memória. Tantas vezes lhe ouvi dizer “Ai a minha cabeça” quando se apercebia mais tarde que tinha feito algo de errado como, por exemplo, deixar correr água em cima de uma tarte de maçã acabada de sair do forno. Deu para rir. Tinhamos que rir. Não valia a pena levar estas situações muito a sério! Hoje, não diz absolutamente nada. Nem, olá filha!

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  9. Entendo-te!
    Tenho a minha mãe com 87 anos num lar em Lisboa com Alzheimer.
    Ainda anda , conhece as filhas , mas apenas pronúncia sílabas. Não tenho nada a apontar ao lar, mas dói-me o coração ver a minha mãe ali.

    Beijinhos.

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    1. Quero acreditar que a minha mãe ainda me reconhe. Quero acreditar veementemente.
      : )

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  10. Infelizmente os meus pais já partiram, mas no lar onde a minha mãe esteve nos últimos anos da sua vida, haviam duas pessoas com Alzheimer e o tempo que ela lá esteve antes de falecer, deu para perceber o que aquela doença pode fazer a um ser humano. :(((

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    1. Neste lar há muitos, muitos casos de Alzheimer e no andar onde se encontra a minha mãe são os casos mais avançados. Parece que já me habituei a determinadas situações. Residentes que se aproximam de mim para me pegar na mão, que me perguntam onde está a mãe (curiosamente nunca ouvi ninguém perguntar pelo pai). A minha mãe quando ainda vivia comigo, também me chamava mãe. De início, corrigia-a; mais tarde vi que não valia a pena. : )

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  11. A dignidade tem de ser preservada até ao fim. Todos temos a responsabilidade de zelar pelos nossos doentes, pelos nossos idosos. Um dia destes seremos nós a precisar.

    Bonito relato!

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    1. Dignidade é a palavra-chave. E é por ela que temos que lutar.
      : )

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  12. Uma situação difícil, especialmente para os familiares próximos. Penso que tem a vantagem dos próprios não terem noção do seu estado, pelo menos quando a doença já está avançada.

    Quanto aos profissionais desses lares, era bom que fossem todos assim, mas por cá duvido, do que tenho ouvido falar. Em compensação, fiquei com uma ideia muito boa dos profissionais de saúde nos hospitais públicos, que tinham (e têm) tão má fama: é verdade que se espera muito tempo nas urgências (mais ainda quando há surtos de gripe, claro), mas normalmente também é porque fazem vários exames (análises, radiografias, eletrocardiograma e o que acharem necessário), que demoram até estarem prontos. Mas enfim, para dizer mal,está toda a gente pronta... ;)

    Beijocas e que tudo decorra o melhor possível!

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    1. Tenho ouvido falar muito bem dos hospitais públicos em Portugal; uma das minhas grandes amigas trabalha num como pediatra; a outra em clínica geral. Apesar dos problemas que existem, dos cortes orçamentais, das transferências de serviços (ou propostas; não tive ainda confirmação se foram aprovadas ou não), os profissionais de saúde esmeram por servir bem os pacientes... de uma maneira geral.
      Bjos

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  13. Difícil comentar. Imagino como é duro para quem tem familiares nessa situação. Amedronta-me a ideia da doença.

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    1. Compreendo. Temos que aceitar e fazer o nosso melhor quanto aos nossos entes queridos.

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  14. Uma doença doença terrível.
    Beijo.
    Nita.

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