sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Quando se aposentarem quem os irão substituir?


Há relativamente poucos dias, antes de os nevões terem assolado a cidade, ouvi um som musical, muito peculiar,  a indicar que o amolador vinha a caminho. Curioso. Veio mais cedo este ano. Habitualmente, só o oiço uma vez por ano e é na primavera.  Quem sabe se a crise teve algo a ver com esta surpresa. Os amoladores de há algumas décadas atrás (em Portugal),  andavam de bairro em bairro, de vila em vila, montados numa bicicleta e era através de um pedal que eles produziam a força necessária para fazer girar a roda que iria afiar as facas, as tesouras... Agora deslocam-se em carrinhas devidamente preparadas para a execução de um bom trabalho.


A propósito desta profissão em vias de extinção pensei noutras. O ardina. Não me recordo de alguma vez ver um ardina por aqui. Os “ardinas” foram substituídos pelos distribuidores de jornais  - que não apregoam – e que se deslocam de carro entre as 3 e as 5 da madrugada, faça chuva ou faça vento, neve ou não, para que os seus clientes os possam ler no conforto do seu lar e com uma chávena de café fumegante à sua frente.

E depois lembrei-me dos cauteleiros. Lembrei-me de um dos meus avós que colava, numa parede, todas as cautelas que comprava, sinal que a sorte grande afinal ainda não lhe tinha batido à porta; mas havia sempre aquela esperança... Um dia... talvez um dia... Mas esse dia nunca chegou.
E não posso falar em cauteleiros sem mencionar este outro que para além de apregoar as cautelas de lotaria, encantava com as suas quadras; quadras que transmitiam doçura, humor, resignação e dor...
De vender a sorte grande,
confesso, não tenho pena;
que a roda ande ou desande
eu tenho sempre a pequena.

António Aleixo



(Imagens da net)




19 comentários:

  1. O padeiro que levava o pão a casa, deste também me lembro bem Catarina.
    E quando o pão ainda ia quentinho.....
    Os tipos da ASAE nunca devem ter provado este pão quentinho.

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  2. Infelizmente, em Portugal muitas das antigas profissões, umas já desapareceram outras estão em vias de extinsão.
    Aqui em Bangkok, onde resido, vejo, todos os dias passarem à minha porta, uma enorme variedade de vendores, que, ou apregoam ou usam um toque especial de sineta ou de buzina, entre eles os amoladores de facas, os tintureiros, os vendedores de lotaria, enfim, um mundo à parte, que levará anos a extinguir estas profissões.
    Aqui a ASAE, não faz farinha!...

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  3. Querida Catarina, que engraçado também existirem por aí os amoladores. Lembras-te que aqui, quando se ouvia o som da sua gaita tradicional, significava qua vinham aí dias de chuva?
    Beijinhos e obrigada por seres tão boa amiga, nesta esfera :)

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  4. Não fazia ideia de que também no Canadá existiam amoladores. Pois, cá por Faro, volta não volta, ainda oiço e vejo passar o amolador e é com bicicleta. :)

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  5. Estamos na era dos descartáveis... e os nossos filhos e netos irão "sofrer" outras perdas. É a vida!

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  6. As leiteiras que apregoavam o leite na Nazaré e que nos acordavam de manhã quando estávamos de férias, com um sonoro:
    - Leiteiraaaaaaaaaaaaaaaaaa!
    Já onde vivia o leiteiro não apregoava, batia à porta e pronto!
    Engraçado essa de haver amoladores no Canadá!
    Por cá ainda se vão ouvindo...
    Sons nostálgicos!

    Abraço

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  7. CATARINA, todos estes prestadores de serviços
    mencionados, estão em extinção. Aliás,a maioria
    já foi extinta. O que é lamentável.

    Abraço

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  8. Pedro,

    Também me recordo do padeiro. E do peixeiro. Ainda os vejo quando vou de férias, dependendo do lugar onde me encontro. Os meios de transporte é que mudaram. A ASAE tem as suas funções a desempenhar para o bem do consumidor! : )

    António,

    Por aí a fase “vias de extinção” ainda não se deve aplicar como acontece na Europa e na América. Se a ASAE por aí aparecesse.... : )

    Manuela,

    Obrigada! : ) Também fiquei surpreendida quando ouvi o amolador pela primeira vez e nesta área residencial. Suponho que deverá ter alguns clientes para continuar a passar. Nunca o vi, nem sei se é a mesma pessoa mas fiquei com curiosidade de conhecer a sua origem; como sabes, há profissões e/ou ofícios mais associados a determinados grupos étnicos... Abraço.

    Luisa,

    O amolador ainda anda de bicicleta? A cidade é pequena... os percursos não são longos. : ) Bjos

    Fenix,

    Concordo consigo no que se refere à “descartabilidade” a qualquer nível. Parece que já não há apreço pelo bom desempenho de cada um... a oferta é grande. Bom fim de semana.

    Rosa,

    Ahahaha. As leiteiras passavam tão cedo! Todos passavam demasiado cedo durante a época das férias! As mulheres sempre foram mais espalhafatosas, mais “desenrascadas” para certos negócios.
    Alguma vez adoeceste com esse leite? Imagina hoje... O que me incomoda ainda mais é a quase extinção do comércio de proximidade. Os tentáculos das grandes superfícies até atingem o pequeno merceeiro que vive a dezenas de quilómetros. Abraço.

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  9. Catarina,
    Quão delicioso é este seu post... Os amoladores, os cauteleiros, o ardina e o António Aleixo, tudo em perfeita harmonia, lembrando profissões quase em extinção.
    Os amoladores já quase não se vêem e os ardinas agora andam de mota, pelo menos na cidade de Coimbra!
    Beijinho :)

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  10. Um belo post, Catarina!
    A propósito de profissões em vias de extinção, batem-me à memória, assim de repente, o carvoeiro, o leiteiro, o latoeiro, o ferrador, o albardeiro...

    Beijo :)

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  11. Paloma,
    Em certos países, em certas regiões talvez já não existam mais. O que continua a existir e parece que cada vez mais, nas baixas dos grandes centros urbanos, como Toronto e Nova Iorque, por exemplo, são os vendedores ambulantes de alimentos: cachorros quentes, sandes, etc. No Rio de Janeiro também devem existir, não? Já visitei essa cidade há tantos anos que não me recordo. Recordo-me sim de umas fatias de abacaxi – o mais doce que comi até agora! – na praia de Ipanema .

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  12. Lembro-me de outros, quando ainda estava na caminha (nos arredores da cidade) e os ouvia cá fora :

    Os pregões matinais dos vendedores de cadeiras e bancos de porta em porta, assim como os de carqueja para os fogões a lenha
    “Merca cadeiras e bancos !!!”
    “Merca carqueja !!!”

    O vendedor do azeite e vinagre numa carroça puxada a cavalo, pelas ruas e a tocar uma corneta para assinalar a presença. (Neste eu gostava de uma boleia de uns metros na carroça).

    Os cantadores de rua que paravam aqui e ali para cantar :
    “Andava a desgraçadinha no gamanço
    Era filha de um pai estruberculoso”
    Havia um/a ajudante que vendia os versos numa grande folha de papel.

    As peixeiras (varinas) que vendiam o peixe fresco de porta em porta.
    As hortaliceiras, que faziam o mesmo, mas com as hortaliças frescas.
    As/os padeiros a distribuir o pão.
    As/os leiteiras a distribuir o leite acabado de mungir das vacas.

    etc., etc..
    .

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  13. Ana,

    Obrigada, minha amiga!
    Mota? Sinal dos tempos modernos! : ) Bom fim de semana.

    AC,

    Agradeço igualmente o simpático comentário! As profissões de carvoeiro e latoeiro não estão a fazer parte, neste momento, desta gaveta de recordações que abri ontem : ) Mas a de ferrador, sim! Lembro-me de perguntar, quando era garota, se aqueles “pregos” nas patas dos animais não lhes causariam grande sofrimento.

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  14. Rui,

    Ahahah, que belas recordações! Havia mais calor na convivência entre vizinhos, nessa altura, mais solidariedade. Mas tudo muda... tudo sofre as consequências da evolução social e não só...
    O teu comentário também me ajudou a percorrer outros caminhos do passado, outras experiências que talvez nunca tivesse... Abraço.

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  15. os amoladores que passam por Almada (de longe a longe) ainda usam a bicicleta e ainda adivinham chuva, Catarina.

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  16. Qual é a estória ou lenda que faz a associação entre amolador e chuva? Desconheço. Abraço, Luis.

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  17. sempre ouvi dizer que a "música" do amolador era anûncio de chuva, e normalmente chove no dia a seguir ou no próprio dia, Catarina.

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  18. : ) Muito interessante... Em tempo de seca, basta chamar o amolador! : )

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  19. Na zona da casa dos meus pais (nas Antas, Porto) ainda passa pelo menos um amolador e reconheço-o pelo som, penso que de harmónica :)

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