Haverá alguém que não tenha, pelo menos, um amigo?
“Alguém que pensa em ti quando não estás aqui.”?
“... alguém que tem sempre tempo para ti quando apareces.”?
“Alguém em quem tu podes acreditar.”?
“Quem é o teu amigo?”
(Excertos de “Um amigo” de Leif Kristiansson, tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen)
Não foi a propósito do Dia de S. Valentim que recorri a este texto simples e tão directo que tanto pode ser lido por crianças como por adultos. Não. Foi depois de ter lido a notícia acerca da senhora idosa que foi encontrada morta no seu apartamento na Renchoa, Sintra, e que segundo parece, já teria falecido há nove anos.
Como foi possível ninguém – nem família, nem amigos, nem conhecidos, nem vizinhos, nem carteiro, nem proprietário do prédio, nem polícia, nem qualquer entidade camarária – ter dado pela falta desta senhora e ter tentado descobrir o que lhe aconteceu?
Em vida, saberia esta senhora responder à pergunta que Leif Kristiansson coloca?
Que tipo de sociedade nos tornámos que não protege os seus membros mais frágeis, mais carentes?
Quando comecei a ler o post pensei logo que lhe ia falar deste caso. Infelizmente, há muita gente ( principalmente velhso) que vivem numa solidão aterradora. Isso acontece em Portugal e em quase todo o mundo.(Lembro-me do caso de um emigrante português que morreu em Paris, em casa, e só foi encontrado passado quase um ano). Mas esta velhota até tinha uma amiga, que tudo fez para tentar convencer a polícia a entrar em casa da senhora. E avisou a família do que se estava a passar. Ninguém ligou.
ResponderEliminarEste caso já me fez penar muito, hoje. Não só sobre a solidão, mas também sobre a forma desumana, descuidada e laxista como agem as nossas instituições.
Como já esclareceu o Carlos Barbosa de Oliveira, até houve quem desse pela sua falta. Mas nem com anos de insistência junto das autoridades e até de familiares, se conseguiu averiguar o que havia sucedido com a senhora. Chocante.
ResponderEliminarCarlos e luisa,
ResponderEliminarComo já se aperceberam (porque ambos leem os meus simples “posts” e cujos comentários já não posso mais dispensar! : ) não me debruço sobre assuntos complexos – pelo menos até agora – nem de grande profundidade psicológica ou de outra qualquer profundidade! O intuito é publicar “light stuff” que possa dar azo a troca de impressões. Mas esta notícia chocou-me e tive que escrever sobre ela. Os olhos humedeceram-se e fiquei momentâneamente a olhar para o écran do computador depois de ter terminado a leitura do artigo. A pergunta que continuava a martelar-me a mente era: Como é que isto pode acontecer? Como? Li, de facto, que uma vizinha alertou. E ninguém fez absolutamente nada...Fiquei incomodada o dia inteiro. E mesmo agora continuo a sentir este nó na garganta.
Ouvi a notícia na rádio e achei imensamente triste o que tinha sucedido. Agora ao ler os comentários em cima fiquei a saber que pelo menos tinha uma amiga que se preocupava com o que lhe teria sucedido.
ResponderEliminarRedonda,
ResponderEliminarDeve haver muitos factos ainda que não vieram à superfície ou que não foram revelados. Não haveria ninguém que teria uma segunda chave do apartamento? Qual teria sido a reacção da família? Que triste fim! Uma senhora que provavelmente tanto se sacrificou pelos seus familiares, que tanto deu de si.
CATARINA, isto retrata o total abandono do ser
ResponderEliminarhumano.Infelizmente acontece em qualquer parte
do mundo.
Sim, Paloma, pode acontecer em qualquer parte do mundo. Mas a pergunta continua: Como é que um caso deste pode acontecer?
ResponderEliminarAo ter conhecimento do ocorrido, triste fiquei, infelizmente as coisas em Portugal andam de mal a pior.
ResponderEliminarFelizmente que existem algumas rádios locais, sito Radio Voz de Alenquer e muitas outras, que apoiam as pessoas idosas, com seus programas das 00.00 horas até às 07.00 horas.
Através destes programas, são abordados todos os tipos de assuntos, entre eles a soliriedade, e as pessoas se falam e se confortam.
Quando algum ouvinte não dá de si, logo exitem ouvintes que vão saber o que se passa com essa pessoa.
São estações de rádio desta natureza que ajuda a afastar a solidão de milhares de portugueses.
António,
ResponderEliminarUm caso deveras triste. Nem sei que mais dizer. Esta notícia não me sai do pensamento.
Catarina,
ResponderEliminarTomei conhecimento da notícia ontem também.
É brutal, quase inacreditável.
No final da reportagem, fiquei a matutar, juntamente com a minha mulher, nas questões todas que aqui são colocadas.
E não conseguimos respostas.
O horror da solidão, especialmente dos idosos, é um tema que me comove profundamente.
Vou partilhar uma experiência de vida que representa o oposto desta notícia.
Grande amigo dos tempos de adolescente, de inúmeras borgas, era filho de um tipo alcoólico.
Que o maltratava.
A ele, à mãe dele, à avó do meu colega, sogra do tipo e que ele odiava.
Que, inclusivamente, não reconhecia o meu amigo como filho (dizia que ele era filho de um médico...).
O meu amigalhaço foi para os Açores, casou por lá e por lá ficou a viver.
O avó faleceu, a mãe também (a senhora era um doce de pessoa) e o pai ficou sozinho.
Esse meu amigo, do qual sempre gostei muito mas que agora admiro extraordinariamente, consegue deslocar a sua família dos Açores para Coimbra.
Contrata uma enfermeira para cuidar do pai, mas, para além disso, pelo menos duas vezes por semana, vai buscar o pai, vai jantar, passear, conversar com ele.
O alcoolismo desapareceu, não há ódios recalcados, abandono, solidão.
Ontem, depois de ouvir aquela notícia horrorosa, lembrei-me de todos eles. E senti-me um bocadinho melhor.
Espero que aconteça o mesmo com a Catarina e os restantes leitores do blogue.
Bjs
Sim, Pedro, são estórias tristes como estas que nos fazem reavaliar a sociedade em que vivemos, as instituições que nos governam, a solidariedade ou a falta dela, o egocentrismo que nos limita a capacidade do bem fazer de que somos capazes. A “descartabilidade” (não tenho a certeza se esta palavra existe) que rodeia os idosos que já perderam parte ou a totalidade da sua autonomia e que, consequentemente, não podem mais contribuir para o clã parece ser, de uma maneira geral, o seu destino.
ResponderEliminarEsse seu amigo é, evidentemente, digno de consideração.
Ao que parece, uma vizinha teria alertado as autoridades para o facto mas em vão.
ResponderEliminar9 anos sem vida, sem amigos, no vazio de uma sociedade mais alheada de tudo e de todos.
Uma situação deprimente.
Observador,
ResponderEliminarEsta é uma estória que ainda está por desvendar. Há muita coisa que não está a bater certo como se costuma dizer. Há algo de muito, muito errado. Quando li que um representante do Ministério Público (e nunca se irá saber quem foi o/a idiota) disse que se a senhora estivesse morta notava-se o mau cheiro... Como é que esse/a funcionário/a público conseguiu ser aceite para exercer tais funções no ministério? Chiça!